terça-feira, 16 de dezembro de 2014

INTERESTELAR E O SENTIMENTALISMO CIENTÍFICO



Olá amigos do Blog do Oigo! Diego José aqui com mais uma matéria imperdível. Desta vez sobre o recente filme Interestelar de Christopher Nolan.

Diferente do que pode parecer pelo que você vai ler em seguida, eu realmente gostei do filme. Gostei de ele ser cientificamente correto até certo ponto, lidar com questões atuais sobre o futuro da sobrevivência na terra, lidar com coisas como buracos de minhoca, buracos negros e conquista de novos planetas com uma coerência científica pouco vista antes no cinema.



 Eu apenas achei que a teoria que ele propõe e prova como correta no final do filme, é questionável do ponto de vista científico. E essa teoria é a de que o Amor é o sentido do universo, o sentido de tudo. No filme, o protagonista é confrontado pela questão de ter que escolher entre salvar toda a raça humana e ver sua filha de novo, sendo que ele tinha prometido a ela voltar, e não tinha certeza se conseguiria cumprir. Em algum ponto do filme essa escolha é driblada pelo roteiro, e ele consegue salvar a humanidade e estar com a filha ao mesmo tempo. Vou voltar a essa questão um pouco mais na frente.

No fim do filme quando o protagonista entra no buraco negro, ele descobre que o Amor é o sentido de tudo e que isso o levaria a salvação da humanidade. Sentimentos sendo mais importantes que o intelecto. Essa mesma sentença é novamente comprovada no filme, quando a personagem de Anne Hathaway toma a decisão intelectual ao invés da decisão emocional e isso dá em merda total. O ponto do filme foi entendido, Christopher, aliás é curioso que a mensagem seja essa, dentro de um filme tão cientificamente acurado.

Meu problema com isso é que eu não acho que o Amor é o sentido de universo, o sentido de tudo. Acho que não é nem o sentido da nossa vida. É claro, nós vivemos como se fosse, porque é assim que nós fomos criados para ser. Mas o amor, o ódio, a felicidade e todos os sentimentos humanos não podem ser o sentido de nada, porque eles não são o final de nada.



Eles são uma ferramenta pra se atingir outra coisa, e portanto não podem ser o objetivo final de nada.

Se você diz que o amor é o sentido de tudo, pra mim você age mais ou menos como o Pai do Cameron no curtindo a vida adoidado, lembra? Você tem um carro parado na garagem, você não anda nele porque você o ama e não quer gastá-lo nem pra ir na esquina comprar pão. Mas o propósito do carro é levar você a algum lugar. Se você deixa ele parado na garagem, qual a função dele? Nenhuma. Só ser bonito. Da mesma forma, o amor também é bonito, mas ele é uma ferramenta com uma função específica. Levar você a algum lugar. E uma função que pode muito bem ser mais lógica do que emocional.

Todos os sentimentos humanos tem uma função na manutenção da vida da espécie.

O amor serve para nos importarmos uns com os outros, ajuda na sobrevivência de crianças pequenas. Laços familiares são importantíssimos pra sobrevivência da espécie, amor entre parentes próximos manteve a espécie viva contra predadores, etc.

Medo serve para nos manter afastado de perigos desnecessários.

Raiva, agressividade serve para nos defendermos de ameaças.

Inveja serve para nos impulsionar a aprender coisas novas e nos superarmos.

Alegria serve como uma recompensa e alívio sem a qual não conseguiríamos manter a difícil rotina de sobrevivência.

Até o amor a entes falecidos questionado no filme pela personagem de Anne Hathaway tem a meu ver uma função na sociedade. Temos que acreditar que nossos entes queridos falecidos estão felizes ou alcançaram algum tipo de descanso eterno, para que acreditemos que nós também alcançaremos isso algum dia. O que por sua vez, nos faz voltar ao trabalho mais tranquilos, no nosso dia a dia de sobrevivência.

Nós não vivemos para amar. Amamos para viver.


O objetivo é esse, o lugar pra ir é esse. Precisamos ficar vivos, como indivíduos e como espécie, e pra isso não tem jeito, precisamos da ajuda uns dos outros. Precisamos de nosso pais, amigos, profissionais da sociedade, mas acima de tudo, precisamos dos sentimentos. Eles são a cola que mantém a sociedade unida. O óleo que mantém a engrenagem rodando. Agora se você começa a perguntar porque essa engrenagem tem que rodar, acho que está fazendo a pergunta mais profunda, mais do que a que foi feita pelo filme.

Todos nós estamos dentro dessa espiral de sentimentos, não podemos nos desvencilhar dela. Os que por acaso nascem com o problema de estar de fora disso, são doentes, psicopatas, pessoas que não sentem empatia nenhuma, são uma ameaça a vida.

Por mais difícil que seja para nós visualizar essa realidade, pode muito bem ser uma verdade científica que o sentido da existência seja como um filme do lars von trier, e não como esse do Christopher Nolan.

Pode muito bem ser verdade que a realidade da existência seja mais parecida com o Melancolia do que com o Interestelar. Eu sinceramente gostaria de acreditar que é como o Interestelar, mas é perfeitamente possível que não seja, a meu ver.


Pra quem não se lembra Melancolia mostra pessoas vivendo suas vidas enquanto um planeta entra em rota de colisão com a terra. As pessoas que tem algum tipo de laço emocional parecem se desapontar com todos estes. A existência aparentemente  sem sentido ou propósito da personagem de Kristen Dunst, parece se encaixar, ou concordar com a falta de sentido total de um planeta que se choca com a Terra e acaba com toda a vida de uma vez só. No final do filme, o planeta se choca, e vemos uma nuvem de fogo. Fim. Sobem os créditos.

O final desse filme me deu uma sensação de vazio real como poucas vezes eu senti antes. Mas tudo bem, isso só mostra que eu tenho sentimentos, e gostaria de acreditar que as coisas no fim tem um sentido.

Em Interestelar,  quando a questão intelecto x sentimentos é colocada a prova, sentimentos vencem, sempre. Quando o protagonista decide entrar no buraco negro para salvar a humanidade, ele escolhe nunca mais ver a filha (se estou bem lembrado do filme). Mas pra surpresa geral, dentro do buraco negro é como se você visse um espelho dos seus sentimentos(?). O que o permitiu não só salvar a humanidade, como ver novamente a filha. Isso  exclui a consequencia negativa da decisão máxima do filme, e por isso mesmo enfraquece o peso da decisão, na minha opinião. Se você me perguntar, eu preferiria fazer o personagem sofrer as consequencias das escolhas que ele tomou. Se ele decidiu entrar no buraco negro, ele não veria mais a filha. Se ele decidisse ver a filha, seria o fim da humanidade. Mas... Estamos falando de cinema americano. Dinheiro e finais felizes...

O que leva a outra coisa interessante do filme. Que consequencias existirão quando a humanidade conseguir quebrar a velocidade da luz? Teremos realmente a coragem de nos jogar no espaço em missões sem retorno em busca de outros planetas? Nos depararemos com a decisão do personagem de Matt Damon? Salvar a minha pele ou salvar a humanidade?

  Só espero que a pessoa que for jogada no espaço pra salvar a humanidade tenha o pensamento mais racional e menos emocional que o protagonista de Christopher Nolan. Porque na realidade, o fim do buraco pode ser realmente negro.

DJ.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

ROTEIROS- A SALVAÇÃO DO QUADRINHO NACIONAL?


Olá amigos do BLOG do Oigo! Hoje vou falar com vocês um pouco sobre algumas divagações minhas a respeito de roteiros, mas especificamente roteiro de quadrinhos.

Eu assim como muitos de vocês,  quero escrever e escrevo roteiros, mas sempre achei que falando de histórias em quadrinhos, essa era justamente uma das áreas mais carentes de informação para se estudar.

Veja bem, aqui onde eu moro, em Fortaleza, por exemplo, existem bons cursos de desenho, com professores que estudaram fora, profissionais de mercado e tudo mais, mas eu nunca vi algo parecido quando o assunto é roteiro. Nunca tive aula de roteiros com alguém que realmente tivesse tido um estudo formal no assunto, ou seja profissional disso. Nem sequer conheço alguém assim. O que existe são pessoas que são autodidata no estudo de roteiros como eu, que se metem (como eu) a dar aulas sobre isso. No caminho para aprender a coisa, acabei tendo que ensinar. É uma daquelas coisas que você faz porque teve que fazer, "aprendeu" fazendo, e sozinho.

É claro que com a internet isso mudou alguma coisa, pois conhecimento sobre escrita criativa agora está ai disponível pra quem quiser ver, ou pra quem souber que existe! Ou você nunca ouviu a frase: "Você não sabe o que você não sabe?"

Quando eu comecei a desenhar na minha infância, eu sabia que meu desenho estava "ruim", porque eu lia revistas do homem aranha e sabia que não estava igual, só não sabia porque. Fiquei muito tempo sem saber porque, até que um dia alguém me disse que existiam dois assuntos chamados Anatomia e perspectiva. Descobri os motivos pelos quais meus desenhos eram ruins. Era isso que eu não sabia. Eu não sabia que existiam esses assuntos, que eu não sabia nada sobre.

A mesma coisa pode ser dita sobre roteiros. Porque o conhecimento sobre escrita dramática é meio "escondido", meio inacessível, ninguém sabe que existe um assunto chamado Dramaturgia, que é o que você precisa aprender, é o motivo pelo qual seus roteiros estão ruins. Existe uma arte técnica de se contar histórias.

Da mesma forma que eu desenhava completamente por instinto, completamente da minha cabeça quando eu não sabia da existência de anatomia e perspectiva, eu escrevia completamente por instinto por não saber da existência de dramaturgia. Por favor não confunda essa palavra com a escrita de novelas, é simplesmente a palavra que eu estou usando para descrever técnicas de se contar histórias que vem sendo usadas desde a Grécia antiga, talvez até antes.

Eu estava conversando com um amigo um dia desse sobre isso e eu disse a ele que era exatamente isso que eu acho que falta aos quadrinhos nacionais. Acho que a grande maioria das pessoas escreve por instinto, sem ter nenhum tipo de conhecimento que os ajude a melhorar seus roteiros, não porque eles não querem, mas muitas vezes porque eles nem se tocam que escrever pode ser aprendido e aprimorado  assim como qualquer outra coisa. Eu disse ao meu amigo isso e repito:  Não são desenhistas que vão salvar alma dos quadrinhos nacionais, temos tido ótimos desenhistas a anos. Bons roteiros, isso sim é que vai nos salvar. Essa é a única maneira que eu vejo pra nos sairmos das duas síndromes que afetam os quadrinhos nacionais: A síndrome da "Turma da Mônica" e a síndrome do "Super- herói nacional."

Acho que se as pessoas passassem mais tempo discutindo sobre roteiros, e menos tempo discutindo sobre "Os destinos do quadrinho nacional", a coisa já estaria bem melhor.

Mas é claro que isso não é como matemática, não é algo que você lê num livro e aprende automaticamente, assim como toda técnica artística a sabedoria está menos em aprender, e mais em saber quando usar, ou quando não usar. E antes que alguém diga que é "artístico" fazer as coisas sem estar baseado em regras pré- estabelecidas, sem usar coisas como arquétipos por exemplo... Eu acho melhor saber que uma técnica existe, e portanto ter a opção de usar ou não usar. Quando você não sabe que existe, você só tem a opção de não usar, concordam?

Mas bem, eu não me considero um bom roteirista ainda, não sei se me considerarei algum dia, mas posso dizer que tenho estudado o assunto, e comecei a ver que escrever é muito mais complicado do que eu pensei inicialmente. Mais ou menos como descobrir as linhas de fuga de perspectiva.  Acho que ter descoberto isso é bom, porque isso quer dizer aprendizado.


Resumidamente o que existe pra mim em matéria de roteiro hoje são três partes básicas três "momentos", em que pode ser dividido o processo de escrita:

Parte 01- O argumento- Onde você fala o que acontece na história efetivamente, que é mais ou menos como você fala quando conta uma história a alguém. Você diz: "Fulano disse isso", depois aconteceu isso, etc.

Parte 02- O que está por trás- As intenções escondidas dos personagens, sua intenção como escritor de passar uma ideia, uma mensagem, uma sensação. Isso pode ser algo bem simples, como por exemplo: "Superação", "Solidão", etc... Até conceitos mais complexos.

Parte 03- O roteiro final- Pronto com as falas dos personagens, Descrições de planos se for pra cinema, descrição de quadros se for pra quadrinhos, descrição simplesmente se for um livro, com as falas dos personagens, etc.

Dessas três partes, a número dois ali é justamente onde eu acho que está o problema.

Acho que a maioria das pessoas iniciantes em escrita, eu incluso, fazem somente a parte 01 e a parte 03, esquecendo completamente da parte 02. E é justamente nessa parte que está o perigo, e também a recompensa.

Enquanto estudava sobre roteiros pensei que os bons roteiros são aqueles que dão a você a ilusão de que você é inteligente. Nada a ver com ser de verdade ou não. Isso porque quando você sente que "pegou" o que o autor quer dizer (parte 02), isso faz com que você se sinta inteligente. O que também não quer absolutamente dizer que você pegou o que ele quis dizer, você pegou alguma coisa, se é o que ele quis dizer, só Deus sabe.

Agora é claro que isso é como um jogo de videogame. Se for muito fácil vai ser frustrante, se for muito difícil vai ser igualmente frustrante, então cabe a você esconder ou revelar na medida certa o seu ponto número "02" citado por mim lá em cima.

Pense na primeira edição do cavaleiro das trevas do Frank Miller:
(Oh... O Batman se sente como o Duas-Caras, ou ele é exatamente igual ao duas caras)

A piada Mortal do Allan Moore:
(O coringa não é tão ruim, porque qualquer pessoa que tivesse passado por aquilo teria ficado louco)

Aquela primeira parte do Daytripper:
(Você dificilmente vai conseguir fugir da influência da sua família na sua vida, seja boa ou ruim)

METÁFORA- É a palavra. A boa história remete a outra coisa. Porque você acha que Jesus e o Mestre dos Magos sempre falavam em parábolas e enigmas? Porque o conhecimento que você tem trabalho pra encontrar é o que fica com você, o que te é dado de mão beijada é esquecido.

O número DOIS que eu falei acima é o que eu acredito que separa os roteiros bons dos roteiros ruins. Você pensa que gosta da piada mortal porque foi uma boa História do Batman e do Coringa, mas não. Você gosta porque ela foi uma das únicas que queria dizer alguma coisa, passar um "conceito" fora da superfície do Batman e Coringa. Esse conceito:
"Qualquer pessoa normal ficaria louca se passasse por experiências traumáticas?" É a história, e poderia ter sido contada de várias formas diferentes, poderia ter sido contado por duas donas de casa, dos esquimós, dois lixeiros, ou no caso... Um herói e um vilão.



Outra ideia que eu tinha e que foi derrubada quando comecei a ler sobre isso é a de que quem escreve assim já senta pra escrever sabendo do que vai falar, sabendo qual é o tema ou ideia por trás de tudo, mas não. Você vai escrevendo simplesmente, no meio do processo a tema pode aparecer. Dai pra frente você escreve tudo se encaixando com ele, e volta dai pra trás encaixando tudo com ele também. Mas você tem que estar atento ao tema, quando ele se revelar.

E como mostrar isso então? Sempre fiquei intrigado com algo que acontecia sempre nos roteiros do House. Eu adoro a série, mas em alguns episódios eles tinham a necessidade de fazer algum personagem dizer literalmente o "sub-tema" da coisa, a coisa que talvez fosse melhor você entender sozinho. Exemplo:

No episódio (que é um dos meus preferidos) Em que o Foreman fica doente, e o House não age como normalmente agiria- Sem ter alguma ideia louca pra salvar a vida de Foreman, como ele agiria se fosse qualquer outro paciente, Wilson diz a House que ele está "travado" por se tratar de uma pessoa que ele conhece, não um estranho completo, e portanto ele não teria o distanciamento necessário para criar uma daquelas ideias mirabolantes e arriscadas que acabariam por salvar a vida de Foreman. Explicação da ideia por trás.


Necessária? Não sei. O que eles faziam constantemente na série na minha opinião é pegar coisas que deveriam estar na parte 02, e jogar na parte 03, no roteiro em si. Mas tudo bem, talvez fosse porque algumas coisas seriam complexas demais. Nada que atrapalhe a série.

Outra coisa bem interessante diz respeito a escrita de diálogos.  Podem achar loucura, mas eu acabei descobrindo que escrever diálogos pode ser um trabalho bem mais próximo do trabalho de um ator, do que do trabalho de um escritor. Quando você escreve um diálogo, sua cabeça tem que estar funcionando completamente na "parte 02". O que você vai digitar, o que você vai fazer o personagem falar é quase tão interpretativo quanto como se você fosse o próprio ator a dizer aquelas falas. Porque as falas escritas também são uma interpretação. De que? Se você perguntar... De tudo que há por trás, da personalidade do personagem, da situação do momento da história, etc e tal. A fala tem que ser o que inevitavelmente aquela pessoa diria naquela situação de acordo com algo que você como autor quer passar também. É sobre isso que escritores falam quando dizem que personagens "ganham vida" ou "se escrevem sozinhos", claro que isso não existe. O que existe é que você conhece tão bem aquele personagem, que o que ele diz é inevitável, ele não poderia dizer de outra forma.

Por hoje é só galera! Vamos escrever!

DJ

terça-feira, 12 de agosto de 2014

HARVEY PEKAR- POESIA DA VIDA REAL


Olá amigos do Blog do Oigo! Diego José aqui para mais uma matéria imperdível, desta vez sobre o grande Harvey Pekar!
Pra quem não conhece ainda a trajetória deste, como diria o Faustão- Monstro sagrado dos quadrinhos, aqui vai um pequeno resumo:
Harvey Pekar nasceu em Clevelad, Estados Unidos, em 8 de Outubro de 1939, morrendo em 12 de julho de 2010. Segundo suas próprias palavras, passou 10 anos "teorizando" sobre a possibilidade de fazer uma história em quadrinhos.  
Escrevia histórias e fazia pequenos layouts com figuras de palito. Foi só depois de sua amizade com Robert Crumb, que ele finalmente conseguiu ter uma de suas histórias desenhadas, e nascia a série "American Splendor", em 1976, que até onde sei está sendo vendida e republicada até hoje.

Pekar Definia sua obra como " Uma história que é escrita enquanto acontece". O grande lance de Harvey, a sua genialidade era isso. Suas histórias eram retratos fiéis do que acontecia em sua vida.

Pense o que acontece na sua vida: Você vai pro trabalho,  no super mercado, chega em casa, conversa com um amigo, fala no telefone, pronto. Isso é sua vida e isso eram as histórias do Harvey. 

As histórias do Harvey, assim como as do Robert Crumb e outros autobiográficos hardcores,  não tem as técnicas de roteiro que você aprenderia se fosse fazer um curso de como escrever roteiros.  Não tem ritmo, começo meio e fim, muitas vezes não tem conflitos e quando tem, estes são apresentados de maneira bem diferente, não tem conclusão, clímax,  etc e etc... Nenhum dos velhos truques de dramaturgia. Elas carecem daquele esquema de estrutura de roteiro utilizado pelo autor com o intuito de passar alguma mensagem, mas isso não quer dizer que elas não tem mensagem nenhuma.

Alan Moore, um dos grandes apoiadores e fãs do Pekar, disse que suas histórias só não são mais aclamadas e aceitas porque os leitores de quadrinhos não estão acostumados a sutilezas.
As histórias do Harvey não chegam a conclusão nenhuma porque a vida não tem conclusão nenhuma.  Não tem emoção (em sua maioria) porque 90% da vida não tem emoção nenhuma. 90 % da vida é feita de sequências de momentos chatos e tediosos. Se tivermos sorte, teremos alguns poucos momentos de felicidade e significado para nos agarrarmos, e mesmo se não tivermos, devemos agradecer pra não ir pro outro lado da moeda, para os momentos ruins, apesar de que neles (as vezes) também conseguimos significado.

Todas as obras: Filmes, livros e quadrinhos, principalmente os mais comerciais, retratam exatamente esses 10% de vida, em que as coisas parecem extremamente felizes ou tristes, o momento que atribuímos significado.  É sempre o momento de risco de vida, o momento de grandes viradas na vida amorosa, o casamento, nascimento de filhos,  morte de alguém, momentos extremamente engraçados, conflitos familiares, etc... Inclusive isso tem sido uma prática das grandes editoras, sempre que um personagem famoso está caindo em vendas... Todo mundo lembra da morte e casamento do Super homem não é? E eles fizeram nessa ordem... Acho que eles pensaram... Depois da morte, o que pode ser pior?

Mas e se a vida tivesse significado no momentos tediosos do dia a dia?  E se não precisássemos  de momentos bombásticos fictícios?   Talvez a vida faça sentido até mesmo na fila do super mercado, até mesmo quando você recebe uma ligação errada ou quando dá comida ao seu gato. Quem sabe você que não percebeu, por ser muito sutil. Ou quem sabe o que você pensou ser o sentido real, não era. Quem sabe o sentido esteja no pequeno, no casual e no intimo e não no grandioso, no épico.

É claro que Harvey Pekar não transformou toda sua vida em histórias em quadrinhos.  Não tinha como. E mesmo ele também retratou em suas histórias os momentos dramáticos de sua vida, como quando ele teve câncer, ou quando conheceu a esposa, quando seu filme foi lançado, etc.  É relativamente fácil imaginar porque o fato de ele ter tido câncer acabou nas páginas dos quadrinhos, mas e quanto aos fatos comuns e corriqueiros? Dos milhões de fatos comuns e corriqueiros porque escolher justamente os que ele escolheu?

Porque no fundo as histórias não são sobre os fatos corriqueiros, mas sobre o que ele pensou sobre os fatos corriqueiros, sua visão do momento, do fato, do acontecido. Todos nós vivemos nossas vidas pensando sobre coisas que acontecem. Gostamos de algumas coisas, desgostamos de outras. Muitas vezes temos algo a dizer sobre alguma coisa. Mas a maioria dessas opiniões nem sequer são ditas em voz alta, muito menos registradas para a eternidade em uma obra de quadrinhos.

Harvey Pekar fez pelos quadrinhos fez para os quadrinhos o que o Youtube está fazendo com a televisão hoje em dia. Você não precisa de nenhuma característica especial pra aparecer. Você tem  direito a espaço se tiver algo a dizer. Quem sabe somente o fato de viver já seja uma obra de arte em si. Para maioria das pessoas essa arte ficará para sempre sem público. Não para o Harvey.

   

sexta-feira, 7 de março de 2014

O JOGUINHO DO MAURÍCIO


     E ai pessoas! Este Post vem sendo escrito na minha mente já a algum tempo e agora devido a acalorada discussão no Facebook promovida pelo grande JJ Marreiro,  decidi finalmente escrevê-lo e compartilhar um pouco da minha opinião a respeito dessa coisa toda do nosso amigo Maurício. (Estou falando do Maurício de Sousa!) rere
      Primeiro gostaria de dizer que assim como boa parte das crianças que gostam de quadrinhos no Brasil, a primeira coisa que li foi turma da Mônica. Eu li muito, pois tinha assinatura, e acredito que a Turma da Mônica esteja no meu DNA de quadrinhos por assim dizer.  Mas eu não pude deixar de questionar algumas coisas mais racionais a respeito disso.
       Para a grande maioria das pessoas sucesso comercial é igual sucesso. Se você vende muito, você é bom e continua trabalhando, mesmo que você seja o Rob Liefeld, o Michel Teló ou o Michael Bay.

     Pensando sobre essa coisa do Maurício de Sousa, me veio a cabeça um filme que já é a segunda vez que eu uso como exemplo, rs...  Mas é porque ele pra mim explica algo em torno dessa situação.
      O filme é "Wall Street" de Oliver Stone (O original de 1987). Nesse filme nos somos levados a explorar um pouco das motivações por trás de pessoas muito ricas e poderosas. O filme mostra um cara que mesmo depois de já absurdamente rico, continua trabalhando para ganhar mais dinheiro. Acredito que seja algo parecido que acontece com o Maurício.
Veja bem:  Dinheiro pra você e pra mim não significa a mesma coisa que significa para o Maurício de Sousa. Pra mim e você, significa principalmente algo que queremos e ainda não temos, como um carro, ou um carro melhor, uma casa, possibilidade de viajar, de poder sustentar os filhos pra quem tem ou quer ter, possibilidade de ter tempo livre, etc. Algo que queremos e não podemos ter. Algo material.
       Para as pessoas absurdamente ricas que já tem tudo que poderiam querer, o dinheiro não quer dizer isso. Ele perde seu significado, seu propósito primeiro, ele vira outra coisa.
       No filme, quando o personagem de Michael Douglas é confrontado com a pergunta de:  "O quanto é suficiente? " Será que ele precisa de mais uma mansão? Mais um carro? Mais um helicóptero? Não.

É UM JOGO.

     
 Ganhar dinheiro a partir daí se torna um jogo. Um jogo no sentido literal da palavra. Maurício de Sousa e ricos desse mesmo nível vivem a vida como um grande "Banco imobiliário", um grande "Age of Empires", ou "Warcraft", ou qualquer outro jogo onde você está comandando um império e tudo que importa é que esse império fique maior. Tudo que importa é que aquele número cresça, mesmo que o crescimento dele não signifique mais mudança nenhuma na sua vida.  O que aliás é o mesmo que acontece quando você joga um jogo em seu videogame ou computador. A subida daquele número de pontos, de dinheiro, ou de nível de personagem nada vai mudar a sua vida, mas você quer fazê-lo crescer, só pelo prazer de ver crescer.

         Eu acredito que um dia o Maurício de Sousa começou o que fez pela arte, mas algum ponto no meio do caminho, quando ele viu que a coisa estava dando lucro, ele passou de artista a empresário. Ficou assim desde meados dos anos 70 até os dias de hoje. Em 2009, então, por iniciativa do Sidney Gusman, foi acontecer o primeira pequena mudança de perspectiva na forma de ver a Turma da Mônica, com os MSPs. De 1970 a 2009 ele quase não mexeu no time, porque empresarialmente e futebolisticamente falando, em time que está ganhando não se mexe. E esse time ganhou muito, não foi pouco não. Ele teve atualizações temporais, versões animadas, filmes, jogos, etc e tal, mas nenhuma mudança mais significativa.  E teve a turma da Mônica Jovem, que longe de ser uma iniciativa artística, foi mais mercadológica, com um claro objetivo de não perder espaço pra os mangás. Dê ao público o que ele quer, é a primeira regra, não é?

        Aqui gostaria de abrir um parêntese sobre outra teoria que tenho sobre a coisa dos MSPs. Eu acho que boa parte do sucesso deles é devido ao fato de eles serem recebidos pelo público em comparação a séries regulares da turma da Mônica que vemos a anos e anos. Afinal o público que compra os MSPS as Graphic Novels são o público das séries regulares.  Series estas que sempre foram feitas de roteiros simples e infantis, sem maior conteúdo, em sua grande maioria. Claro, você vai dizer: Elas são feitas pra crianças. Bone do Jeff Smith pra mim, também é pra crianças. As HQs da Mônica poderiam ser melhores mesmo sendo pra crianças, esse é meu ponto. Chego a dizer que sendo o maio sucesso editorial do país, as vezes acho que a turma da Mônica está meio que nivelando por baixo os leitores de quadrinhos, acostumando-os talvez a não pensar muito. Cada HQ da Mônica pode ser a primeira que você leu, pode ser a última, não vai fazer diferença. É coisa pra ler e esquecer 10 minutos depois.
       Em contrapartida a isso eu não pude deixa de me colocar no Lugar dele em ocasião dessas discussões. E a primeira coisa que eu faria se eu alcançasse um sucesso desse tamanho com uma coisa assim, seria não trabalhar mais nessa coisa, pelo menos até eu achar que minha contribuição a isso foi dada. Eu aproveitaria o espaço e o lucro para produzir outras ideias, outras coisas, quem sabe diferentes, quem sabe não tão diferentes, mas outras. Afinal eu já tenho milhões de pessoas como meu público.

      Todas as pessoas que são criativas tem várias ideias na cabeça que querem produzir, muito mais do que poderiam realmente produzir em suas vidas. Você escolhe uma coisa, a que gosta mais, e faz, mas as outras estão ali, você pensa nelas de vez em quando, você faz uma fila delas na sua cabeça pensando: "Quando terminar isso, vou fazer isso aqui", quem é criativo sabe do que estou falando.

       Eu não consigo imaginar uma mente criativa e imaginativa se estagnando por mais de 30 anos numa coisa só, pra ficar atrás da máquina registradora ouvindo o "chi-ching".

       É claro que as pessoas sempre tiram as outras por si, esse é o meu parâmetro de comparação comigo mesmo. Mas quem sabe pra ele sucesso seja ser rico. Esse era o objetivo. Ou não. Ele mudou o objetivo ao passar do tempo.

       Sempre me intriguei em ver como as pessoas encaram as coisas de forma diferente. Sempre penso numa coisa que li sobre o Robert Crumb quando essas discussões aparecem. Robert Crumb teve uma reação um pouco diferente quando as pessoas começaram a "gostar" das coisas que ele fazia, e começou a vender um pouco mais.
        Ele começou a exagerar. Começou a ser mais sujo e grotesco ainda do que já era, com aquelas fantasias sexuais loucas e coisas do tipo. Ele estava testando as pessoas. Queria saber até onde elas iam com aquilo. ele pensou: "Ah então você gosta de mim não é? Então vamos ver o que você acha disso!"



        Pessoas são diferentes, talvez essa seja a conclusão.
DJ