segunda-feira, 7 de setembro de 2015

FEMINISMO JEANIE BUELLER



E ai amigos do Blog do OIGO! Depois de muito tempo sem postar devido a ocupações, estou de volta!

Vou falar nesse texto sobre feminismo.  UUUuuh!

Não nada disso, sem polêmica.  Durante algum tempo já venho observando o crescimento do movimento feminista nos quadrinhos. Eu acho interessante, porque desde que li os livros do Scott McLoud sempre acreditei que o famoso "potencial inalcançado" dos quadrinhos descrito por ele fosse uma realidade. Tanto do ponto de vista gráfico, quanto do ponto de vista de representatividade. Antes do burburinho feminista nos quadrinhos começar, eu já acreditava nisso.

Quem quiser pode conferir a HQ "Mônica", desenhada por mim e com roteiros da Jessika Thaís, nos downloads da página em "Coletânea".

Depois de um tempo eu percebi que o movimento feminista não estava aí só para representar as mulheres mas também para criticar a maneira como nós as representávamos. Começaram a aparecer críticas a algumas coisas que antes eram consideradas "de boas", algumas das histórias que me lembro agora, foram a capa do Manara, a camisa do cara do cometa (essa sem relação direta com o universo dos quadrinhos), e mais recentemente a imagem de divulgação do HQ mix.


E é ai justamente que a coisa começou a ficar estranha, e ai apareceu a palavra da moda:

OBJETIFICAÇÃO

O que é objetificação afinal? Eu acredito que todo mundo que tenha desejo sexual, seja por homens ou mulheres, uma vez na vida pelo menos tenha fantasiado com o corpo ideal, com um copro que seria perfeito para você. O corpo que você gostaria de tocar. Não acredito que possa existir desejo sexual sem fantasias sobre corpos. Homens fazem isso, mulheres fazem isso, gays fazem isso, sou capaz de apostar que até feministas fazem isso.

Quando somos criativos, queremos fugir da realidade, queremos estar num espaço onde somos livres, onde queremos ver realizadas nossas fantasias e desejos. Fantasiamos tudo, ambientes, histórias, tecnologias, super poderes, personalidades, tudo que existe pelo menos parcialmente só nas nossas mentes. E todos tem fantasias e desejos, mas nem todos as EXPRESSAM. Se você tem habilidade de desenhar, você pode ver suas imagens mentais, realizá-las  em um papel ou tela de computador.

Quando desenhei aquela história achei que seria interessante ver a conquista pelo ponto de uma mulher, sempre tive curiosidade pelo ponto de vista feminino das coisas, mas de repente o feminismo começou a criticar e querer restringir o que nós fazíamos ao mesmo tempo que poderia ter avançado um pouco mais na questão da representação do ponto de vista feminino.

Isso tudo me fez pensar que as feministas criticariam bem menos a nossa liberdade de expressão (com realação a imagens de mulheres) se exercessem completamente a delas. Porque elas podem, não? Eles não tem liberdade pra tudo, ou estão lutando cada vez mais por liberdade? Porque então elas parecem não querer usar a liberdade que tem?

Se você é uma mulher heterossexual as chances são se que você goste de corpos de homem e goste de pênis. Então porque milhares de homens desenham corpos de mulheres que eles consideram atraentes, desenham seios, bundas, pernas, mas muito dificilmente você vê uma mulher heterossexual expressando alguma imagem de fantasia de corpo de homem? de um pênis? É porque elas não tem fantasias com isso? Não mesmo.

Falo mulher heterossexual porque me parece que existe mais liberdade no meio feminista para mulheres homossexuais desenharem corpos de mulheres, tenho impressão que nesse caso elas não consideram objetificaçao (?) Bem, se a maioria das mulheres não entende completamente o feminismo, eu como homem é que não vou.




SOCIEDADE

TODAS as mulheres tem fantasias. Só não as expressam por medo do que a sociedade vai pensar delas. Muito poucas mulheres teriam a coragem de fazer isso. De deixar pra lá o que pais, amigos e outras pessoas vão pensar. Elas tem bem mais coragem de ir contra os homens do que de ir contra a sociedade. E se existe algum adversário, alguém barrando o caminho para as mulheres com certeza é a sociedade e não nós homens. Sociedade é qualquer pessoa de qualquer sexo que chegue pra você te lembrando das regras que você não pode quebrar, ou te lembrando das punições que você terá caso as quebre. Por exemplo:

Regra social: "Mulheres não podem expressar suas tendências sexuais"

Punição social: "Serem taxadas de vadias ou fáceis".

Homens expressam mais facilmente tendências sexuais porque não existe punição social pra nós, sob certos aspectos existem até recompensas. Mas isso não quer dizer que estamos livres da mão invisível da sociedade. Existe uma série de regras muitas vezes também não ditas em voz alta, que precisamos seguir, e sabemos muito bem as punições que teremos se não seguirmos.
Exemplo:

Regra social: Homens não podem demonstrar fraqueza.

Punição social: Não ser atrativo para mulheres.

Eu acredito que seja função da arte destruir as regras sociais, explodi-las completamente como o torpedo do Luke explodiu a Estrela da morte. Isso significa dizer essas verdades que todo mundo sabe mas ninguém fala. Coisas que precisam ser ditas, como por exemplo:

Mulheres também tem fantasias sexuais.

Homens também são frágeis e tem sentimentos.

A luta contra as regras sociais não é apenas fora de nós, mas principalmente dentro de nós, porque todas essas regras já estão na nossa cabeça, nos impedindo de fazer alguma coisa, ou nos obrigando a fazer alguma coisa no automático.

Precisamos bem menos de reclamações sobre imagens de mulheres, e mais de obras de quadrinhos que subvertam a imagem social da mulher, subvertam o que a sociedade espera da mulher,  o que o feminismo espera da mulher, e mostre como ela é na VERDADE.



Mas pra isso é preciso um pouco mais de coragem da parte das artistas, como expliquei.


Gostaria de ver mais obras FEMININAS e menos FEMINISTAS. Porque o feminismo do jeito que vai, apenas adiciona mais uma camada de regras de comportamento sobre camada que a sociedade já colocava sobre as mulheres. Por isso muitas mulheres não se dizem feministas, muitas não sabem como se posicionar nisso tudo, não sabem a que conjunto de regras aderir ou não aderir.

O problema maior com as regras sociais, o problema em entrar num grupo como feministas, é que nenhum conjunto de regras vai dar conta de descrever e representar satisfatoriamente todos os indivíduos. A arte é justamente criar suas próprias regras, ao mesmo tempo em que você expõe as contradições e falhas nas regras "gerais".

Ai cria-se também outra fonte e contradições e maus entendidos, quando o grupo feminusta taxa um homem ou um grupo de homens de "machista". Muitos homens tem dificuldade em se considerar machistas porque esse é um conceito amplo que não representa as individualidades. Bater em uma mulher é indiscutivelmente machista, mas e dai pra outras coisas mais cotidianas? Um amigo meu foi a um evento feminista que aconteceu aqui na minha cidade e foi considerado machista por ter ficado calado durante uma palestra (!?). Ninguém em sâ consciência gostaria de ser colocado no mesmo "saco" que um agressor de mulheres.

Sobre a recente polêmica da imagem do HQ mix, muitas pessoas estão esperando um pedido de desculpas da equipe de organização do evento, mas é difícil pedir desculpa se você não acha que fez algo errado. E se você não acha que fez algo errado, pedir desculpa não seria como assumir uma culpa?

Arte x Comércio

Agora tenha em mente que tudo que falei até aqui se aplica a uma ótica artística, a uma obra. Se estamos falando não de uma obra, mas de um produto, ai já é um animal completamente diferente. Eu não acredito em premiações nem tenho acompanhado de perto nada sobre o HQ Mix nos últimos anos, mas caso de a lista de prioridades deles seja : Fazer público, agradar um público-alvo, manter uma boa imagem para não espantar público, coisas desse tipo, então ao fazer algo que desagrada o público (imaginando que eles considerassem feministas como parte do público) eles estariam realmente indo contra os objetivos de ganhar/agradar o público (caso esse fosse o objetivo). Se esse for o caso, eles deveriam estar considerando a possibilidade de um pedido de desculpas a essa parte específica do público que se ofendeu, por risco de perdê-la.

Uma obra de arte diferente de um produto não tem compromisso nenhum em agradar ou desagradar. Não há um objetivo maior que a expressão do artista. Não há preocupação em atrair público ou fidelizar público, não existe nem mesmo um público alvo definido. Não é necessário.

Feminismo "Jeanie Bueller"



Tirar a liberdade de expressar fantasias dos homens em nada vai ajudar as mulheres a terem mais liberdade.

Tentar restringir a liberdade de alguém de expressar suas fantasias é um esforço tão inútil quanto irreal. Fantasias sempre existirão. Apenas algumas pessoas falam, expressam, e outras não. Negar isso seria como negar o desejo sexual, e negar uma coisa que é tão forte e que influencia tanto do nosso comportamento não faz o menor sentido. Não seria como tentar tapar o sol com a peneira, mas mais como tentar tapar o sol com uma agulha. Um exercício que pra mim vai do ingênuo ao cínico. Simplesmente não parece real, não parece honesto e pra mim portanto, não parece artístico.

É como já dizia Chico Buarque:

"O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo"

Em outras palavras, não tente governar o que não tem governo (nem nunca terá).

Foi dai que eu resolvi rebatizar essa onda feminista, , como Feminismo "Jeanie Bueller"

Pra quem não se lembra, Jeanie Bueller era a irmã de Ferris Bueller, personagem icônico do clássico dos anos 80 "Ferris Bueller's Day Off" ou o nosso "Curtindo a vida adoidado". Eu acho que essa personagem realmente é a metáfora perfeita pra mostrar a atitude feminista atual, com relação a arte.

Jeanie Bueller passa basicamente o filme inteiro com raiva de Ferris, porque ele pode fazer tudo que quiser, pode faltar aulas, pode enganar o diretor, e ninguém pega ele. Ela fica o tempo todo tentando fazer com que Ferris seja pego, que pague por seu "crime" de faltar aulas. Durante a conversa com o personagem de Charlie Sheen, ela finalmente percebe que ela tem mais é que cuidar da própria vida, ao invés de ficar se preocupando com ele. Se ele mata aulas, e dai? Ela também poderia matar. Ela poderia fazer tudo que ele faz, só não faz por que não quer. E é justamente por não fazer que ela se ressente dele. Quando ela percebe que pode também fazer o que quiser, ela não tem mais raiva dele, e até ajuda ele no final! Lindo não?






Da mesma forma se as mulheres percebessem que podem fazer tudo que fazemos, podem expressar todos os seus mais íntimos desejos como nós fazemos, elas não teriam motivo nenhum para querer censurar a nossa expressão, até entenderiam melhor os motivos.

Não são mulheres contra nós, e sim nós todos contra a sociedade.

Podem me chamar de sonhador, mas eu acredito que isso é possível.

Fiquem calmas, gatas!

DJ