sexta-feira, 17 de outubro de 2014

ROTEIROS- A SALVAÇÃO DO QUADRINHO NACIONAL?


Olá amigos do BLOG do Oigo! Hoje vou falar com vocês um pouco sobre algumas divagações minhas a respeito de roteiros, mas especificamente roteiro de quadrinhos.

Eu assim como muitos de vocês,  quero escrever e escrevo roteiros, mas sempre achei que falando de histórias em quadrinhos, essa era justamente uma das áreas mais carentes de informação para se estudar.

Veja bem, aqui onde eu moro, em Fortaleza, por exemplo, existem bons cursos de desenho, com professores que estudaram fora, profissionais de mercado e tudo mais, mas eu nunca vi algo parecido quando o assunto é roteiro. Nunca tive aula de roteiros com alguém que realmente tivesse tido um estudo formal no assunto, ou seja profissional disso. Nem sequer conheço alguém assim. O que existe são pessoas que são autodidata no estudo de roteiros como eu, que se metem (como eu) a dar aulas sobre isso. No caminho para aprender a coisa, acabei tendo que ensinar. É uma daquelas coisas que você faz porque teve que fazer, "aprendeu" fazendo, e sozinho.

É claro que com a internet isso mudou alguma coisa, pois conhecimento sobre escrita criativa agora está ai disponível pra quem quiser ver, ou pra quem souber que existe! Ou você nunca ouviu a frase: "Você não sabe o que você não sabe?"

Quando eu comecei a desenhar na minha infância, eu sabia que meu desenho estava "ruim", porque eu lia revistas do homem aranha e sabia que não estava igual, só não sabia porque. Fiquei muito tempo sem saber porque, até que um dia alguém me disse que existiam dois assuntos chamados Anatomia e perspectiva. Descobri os motivos pelos quais meus desenhos eram ruins. Era isso que eu não sabia. Eu não sabia que existiam esses assuntos, que eu não sabia nada sobre.

A mesma coisa pode ser dita sobre roteiros. Porque o conhecimento sobre escrita dramática é meio "escondido", meio inacessível, ninguém sabe que existe um assunto chamado Dramaturgia, que é o que você precisa aprender, é o motivo pelo qual seus roteiros estão ruins. Existe uma arte técnica de se contar histórias.

Da mesma forma que eu desenhava completamente por instinto, completamente da minha cabeça quando eu não sabia da existência de anatomia e perspectiva, eu escrevia completamente por instinto por não saber da existência de dramaturgia. Por favor não confunda essa palavra com a escrita de novelas, é simplesmente a palavra que eu estou usando para descrever técnicas de se contar histórias que vem sendo usadas desde a Grécia antiga, talvez até antes.

Eu estava conversando com um amigo um dia desse sobre isso e eu disse a ele que era exatamente isso que eu acho que falta aos quadrinhos nacionais. Acho que a grande maioria das pessoas escreve por instinto, sem ter nenhum tipo de conhecimento que os ajude a melhorar seus roteiros, não porque eles não querem, mas muitas vezes porque eles nem se tocam que escrever pode ser aprendido e aprimorado  assim como qualquer outra coisa. Eu disse ao meu amigo isso e repito:  Não são desenhistas que vão salvar alma dos quadrinhos nacionais, temos tido ótimos desenhistas a anos. Bons roteiros, isso sim é que vai nos salvar. Essa é a única maneira que eu vejo pra nos sairmos das duas síndromes que afetam os quadrinhos nacionais: A síndrome da "Turma da Mônica" e a síndrome do "Super- herói nacional."

Acho que se as pessoas passassem mais tempo discutindo sobre roteiros, e menos tempo discutindo sobre "Os destinos do quadrinho nacional", a coisa já estaria bem melhor.

Mas é claro que isso não é como matemática, não é algo que você lê num livro e aprende automaticamente, assim como toda técnica artística a sabedoria está menos em aprender, e mais em saber quando usar, ou quando não usar. E antes que alguém diga que é "artístico" fazer as coisas sem estar baseado em regras pré- estabelecidas, sem usar coisas como arquétipos por exemplo... Eu acho melhor saber que uma técnica existe, e portanto ter a opção de usar ou não usar. Quando você não sabe que existe, você só tem a opção de não usar, concordam?

Mas bem, eu não me considero um bom roteirista ainda, não sei se me considerarei algum dia, mas posso dizer que tenho estudado o assunto, e comecei a ver que escrever é muito mais complicado do que eu pensei inicialmente. Mais ou menos como descobrir as linhas de fuga de perspectiva.  Acho que ter descoberto isso é bom, porque isso quer dizer aprendizado.


Resumidamente o que existe pra mim em matéria de roteiro hoje são três partes básicas três "momentos", em que pode ser dividido o processo de escrita:

Parte 01- O argumento- Onde você fala o que acontece na história efetivamente, que é mais ou menos como você fala quando conta uma história a alguém. Você diz: "Fulano disse isso", depois aconteceu isso, etc.

Parte 02- O que está por trás- As intenções escondidas dos personagens, sua intenção como escritor de passar uma ideia, uma mensagem, uma sensação. Isso pode ser algo bem simples, como por exemplo: "Superação", "Solidão", etc... Até conceitos mais complexos.

Parte 03- O roteiro final- Pronto com as falas dos personagens, Descrições de planos se for pra cinema, descrição de quadros se for pra quadrinhos, descrição simplesmente se for um livro, com as falas dos personagens, etc.

Dessas três partes, a número dois ali é justamente onde eu acho que está o problema.

Acho que a maioria das pessoas iniciantes em escrita, eu incluso, fazem somente a parte 01 e a parte 03, esquecendo completamente da parte 02. E é justamente nessa parte que está o perigo, e também a recompensa.

Enquanto estudava sobre roteiros pensei que os bons roteiros são aqueles que dão a você a ilusão de que você é inteligente. Nada a ver com ser de verdade ou não. Isso porque quando você sente que "pegou" o que o autor quer dizer (parte 02), isso faz com que você se sinta inteligente. O que também não quer absolutamente dizer que você pegou o que ele quis dizer, você pegou alguma coisa, se é o que ele quis dizer, só Deus sabe.

Agora é claro que isso é como um jogo de videogame. Se for muito fácil vai ser frustrante, se for muito difícil vai ser igualmente frustrante, então cabe a você esconder ou revelar na medida certa o seu ponto número "02" citado por mim lá em cima.

Pense na primeira edição do cavaleiro das trevas do Frank Miller:
(Oh... O Batman se sente como o Duas-Caras, ou ele é exatamente igual ao duas caras)

A piada Mortal do Allan Moore:
(O coringa não é tão ruim, porque qualquer pessoa que tivesse passado por aquilo teria ficado louco)

Aquela primeira parte do Daytripper:
(Você dificilmente vai conseguir fugir da influência da sua família na sua vida, seja boa ou ruim)

METÁFORA- É a palavra. A boa história remete a outra coisa. Porque você acha que Jesus e o Mestre dos Magos sempre falavam em parábolas e enigmas? Porque o conhecimento que você tem trabalho pra encontrar é o que fica com você, o que te é dado de mão beijada é esquecido.

O número DOIS que eu falei acima é o que eu acredito que separa os roteiros bons dos roteiros ruins. Você pensa que gosta da piada mortal porque foi uma boa História do Batman e do Coringa, mas não. Você gosta porque ela foi uma das únicas que queria dizer alguma coisa, passar um "conceito" fora da superfície do Batman e Coringa. Esse conceito:
"Qualquer pessoa normal ficaria louca se passasse por experiências traumáticas?" É a história, e poderia ter sido contada de várias formas diferentes, poderia ter sido contado por duas donas de casa, dos esquimós, dois lixeiros, ou no caso... Um herói e um vilão.



Outra ideia que eu tinha e que foi derrubada quando comecei a ler sobre isso é a de que quem escreve assim já senta pra escrever sabendo do que vai falar, sabendo qual é o tema ou ideia por trás de tudo, mas não. Você vai escrevendo simplesmente, no meio do processo a tema pode aparecer. Dai pra frente você escreve tudo se encaixando com ele, e volta dai pra trás encaixando tudo com ele também. Mas você tem que estar atento ao tema, quando ele se revelar.

E como mostrar isso então? Sempre fiquei intrigado com algo que acontecia sempre nos roteiros do House. Eu adoro a série, mas em alguns episódios eles tinham a necessidade de fazer algum personagem dizer literalmente o "sub-tema" da coisa, a coisa que talvez fosse melhor você entender sozinho. Exemplo:

No episódio (que é um dos meus preferidos) Em que o Foreman fica doente, e o House não age como normalmente agiria- Sem ter alguma ideia louca pra salvar a vida de Foreman, como ele agiria se fosse qualquer outro paciente, Wilson diz a House que ele está "travado" por se tratar de uma pessoa que ele conhece, não um estranho completo, e portanto ele não teria o distanciamento necessário para criar uma daquelas ideias mirabolantes e arriscadas que acabariam por salvar a vida de Foreman. Explicação da ideia por trás.


Necessária? Não sei. O que eles faziam constantemente na série na minha opinião é pegar coisas que deveriam estar na parte 02, e jogar na parte 03, no roteiro em si. Mas tudo bem, talvez fosse porque algumas coisas seriam complexas demais. Nada que atrapalhe a série.

Outra coisa bem interessante diz respeito a escrita de diálogos.  Podem achar loucura, mas eu acabei descobrindo que escrever diálogos pode ser um trabalho bem mais próximo do trabalho de um ator, do que do trabalho de um escritor. Quando você escreve um diálogo, sua cabeça tem que estar funcionando completamente na "parte 02". O que você vai digitar, o que você vai fazer o personagem falar é quase tão interpretativo quanto como se você fosse o próprio ator a dizer aquelas falas. Porque as falas escritas também são uma interpretação. De que? Se você perguntar... De tudo que há por trás, da personalidade do personagem, da situação do momento da história, etc e tal. A fala tem que ser o que inevitavelmente aquela pessoa diria naquela situação de acordo com algo que você como autor quer passar também. É sobre isso que escritores falam quando dizem que personagens "ganham vida" ou "se escrevem sozinhos", claro que isso não existe. O que existe é que você conhece tão bem aquele personagem, que o que ele diz é inevitável, ele não poderia dizer de outra forma.

Por hoje é só galera! Vamos escrever!

DJ

7 comentários:

  1. Oi, Diego. Acho importante essa reflexão a respeito de roteiros e construções narrativas. Também acho importante observar que alguns profissionais podem não ter estudo formal e acadêmico de roteiro e ainda assim desenvolverem trabalhos competentes (E não estou falando só do Neil Gaiman). Vale incluir aqui o fato de que particularmente considero extremamente competente o trabalho de roteiro nos cursos da Oficina de Quadrinhos, Graph It Estúdios e Quadrinhos Estúdio -Geraldo Borges- e Estúdio Daniel Brandão e Curso Quadrinhos Gibiteca. Voltando ao ponto : Inclusive acho válida a construção do saber pela prática - sem negar a utilidade do conhecimento teórico. Mesmo os Teóricos concordam que a prática ajuda a solidificar o conhecimento.
    Obrigado por esse incentivo a Reflexão. As pessoas precisam muito disto!
    PS: Dão uma olhada no começo do texto. Tem lá "auto de data".... acho que o correto seria autodidata.

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  2. Esta característica que você cita do House era feita de forma bem mais sutil nas três primeiras temporadas (menos sutil a cada próxima).

    Da quarta em diante eles escancaram e partem pra repetição, começam a tratar o espectador como idiota, e estragam a série com isso.

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  3. Cara, muito bom seu texto! Se não for o melhor que já li escrito por vc, sem dúvida é um deles! Uma reflexão muito boa, me lembrei até de um texto do Alan Moore ensinando a técnica dele para escrever quadrinhos. Boa sorte nas suas novas HQs!

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  4. Curti bastante o texto, uma coisa que eu costumava fazer quando ainda só criava fanfic, era imaginar a idéia e ir simplesmente desenhando e colocando os diálogos na hora, isso se estendeu por muito tempo, ate quando eram os meus personagens, e só de uns tempos pra ca escrevi primeiro, e uma coisa que eu fazia era ja tentar ir pro roteiro direto, nem passava pelo argumento,nem sabia que isso pode atrapalhar, e hj coloco a idéia primeiro.

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  5. É disso ai mesmo que estou falando Rodrigo. Quando fiz a minha primeira edição do Oigo, nunca escrevi o roteiro, apenas fiz um layout direto, depois virei as folhas e escrevi as falas no verso. rere. Mas temos que começar fazendo mesmo.

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