terça-feira, 12 de agosto de 2014

HARVEY PEKAR- POESIA DA VIDA REAL


Olá amigos do Blog do Oigo! Diego José aqui para mais uma matéria imperdível, desta vez sobre o grande Harvey Pekar!
Pra quem não conhece ainda a trajetória deste, como diria o Faustão- Monstro sagrado dos quadrinhos, aqui vai um pequeno resumo:
Harvey Pekar nasceu em Clevelad, Estados Unidos, em 8 de Outubro de 1939, morrendo em 12 de julho de 2010. Segundo suas próprias palavras, passou 10 anos "teorizando" sobre a possibilidade de fazer uma história em quadrinhos.  
Escrevia histórias e fazia pequenos layouts com figuras de palito. Foi só depois de sua amizade com Robert Crumb, que ele finalmente conseguiu ter uma de suas histórias desenhadas, e nascia a série "American Splendor", em 1976, que até onde sei está sendo vendida e republicada até hoje.

Pekar Definia sua obra como " Uma história que é escrita enquanto acontece". O grande lance de Harvey, a sua genialidade era isso. Suas histórias eram retratos fiéis do que acontecia em sua vida.

Pense o que acontece na sua vida: Você vai pro trabalho,  no super mercado, chega em casa, conversa com um amigo, fala no telefone, pronto. Isso é sua vida e isso eram as histórias do Harvey. 

As histórias do Harvey, assim como as do Robert Crumb e outros autobiográficos hardcores,  não tem as técnicas de roteiro que você aprenderia se fosse fazer um curso de como escrever roteiros.  Não tem ritmo, começo meio e fim, muitas vezes não tem conflitos e quando tem, estes são apresentados de maneira bem diferente, não tem conclusão, clímax,  etc e etc... Nenhum dos velhos truques de dramaturgia. Elas carecem daquele esquema de estrutura de roteiro utilizado pelo autor com o intuito de passar alguma mensagem, mas isso não quer dizer que elas não tem mensagem nenhuma.

Alan Moore, um dos grandes apoiadores e fãs do Pekar, disse que suas histórias só não são mais aclamadas e aceitas porque os leitores de quadrinhos não estão acostumados a sutilezas.
As histórias do Harvey não chegam a conclusão nenhuma porque a vida não tem conclusão nenhuma.  Não tem emoção (em sua maioria) porque 90% da vida não tem emoção nenhuma. 90 % da vida é feita de sequências de momentos chatos e tediosos. Se tivermos sorte, teremos alguns poucos momentos de felicidade e significado para nos agarrarmos, e mesmo se não tivermos, devemos agradecer pra não ir pro outro lado da moeda, para os momentos ruins, apesar de que neles (as vezes) também conseguimos significado.

Todas as obras: Filmes, livros e quadrinhos, principalmente os mais comerciais, retratam exatamente esses 10% de vida, em que as coisas parecem extremamente felizes ou tristes, o momento que atribuímos significado.  É sempre o momento de risco de vida, o momento de grandes viradas na vida amorosa, o casamento, nascimento de filhos,  morte de alguém, momentos extremamente engraçados, conflitos familiares, etc... Inclusive isso tem sido uma prática das grandes editoras, sempre que um personagem famoso está caindo em vendas... Todo mundo lembra da morte e casamento do Super homem não é? E eles fizeram nessa ordem... Acho que eles pensaram... Depois da morte, o que pode ser pior?

Mas e se a vida tivesse significado no momentos tediosos do dia a dia?  E se não precisássemos  de momentos bombásticos fictícios?   Talvez a vida faça sentido até mesmo na fila do super mercado, até mesmo quando você recebe uma ligação errada ou quando dá comida ao seu gato. Quem sabe você que não percebeu, por ser muito sutil. Ou quem sabe o que você pensou ser o sentido real, não era. Quem sabe o sentido esteja no pequeno, no casual e no intimo e não no grandioso, no épico.

É claro que Harvey Pekar não transformou toda sua vida em histórias em quadrinhos.  Não tinha como. E mesmo ele também retratou em suas histórias os momentos dramáticos de sua vida, como quando ele teve câncer, ou quando conheceu a esposa, quando seu filme foi lançado, etc.  É relativamente fácil imaginar porque o fato de ele ter tido câncer acabou nas páginas dos quadrinhos, mas e quanto aos fatos comuns e corriqueiros? Dos milhões de fatos comuns e corriqueiros porque escolher justamente os que ele escolheu?

Porque no fundo as histórias não são sobre os fatos corriqueiros, mas sobre o que ele pensou sobre os fatos corriqueiros, sua visão do momento, do fato, do acontecido. Todos nós vivemos nossas vidas pensando sobre coisas que acontecem. Gostamos de algumas coisas, desgostamos de outras. Muitas vezes temos algo a dizer sobre alguma coisa. Mas a maioria dessas opiniões nem sequer são ditas em voz alta, muito menos registradas para a eternidade em uma obra de quadrinhos.

Harvey Pekar fez pelos quadrinhos fez para os quadrinhos o que o Youtube está fazendo com a televisão hoje em dia. Você não precisa de nenhuma característica especial pra aparecer. Você tem  direito a espaço se tiver algo a dizer. Quem sabe somente o fato de viver já seja uma obra de arte em si. Para maioria das pessoas essa arte ficará para sempre sem público. Não para o Harvey.

   

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