terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Adeus a Álvaro Rio

Eu estava fazendo o segundo ano no colégio quando pela primeira vez ouvi falar de Al Rio. Deve ter sido provavelmente por volta de 1995. De alguma maneira soube do curso que ele iria ministrar. Fomos eu meu pai e minha mãe na revista e Cia. Falamos com o Silvio e ele me mostrou desenhos do Álvaro, fiquei fascinado. Já tinha ouvido falar de desenhistas brasileiros que trabalhavam pra Marvel e etc... Mas isso era diferente, era um cearense, morador de Fortaleza. Era um de nós. Só esse simples fato já me fez ver as coisas de uma maneira diferente, desmistificou muitas coisas. fez com que aquele sonho de garoto se tornasse um pouco mais possível. Fui fazer o curso, e muitas vezes eu baixava a cabeça fingindo que estava concentrado no desenho, quando na verdade estava prestando atenção em cada palavra que ele dizia. Até hoje lembro de coisas que ele disse como: "Não jogar fora os desenhos que você fez, porque todos representam fazes que você passou." Coisas que ele ensinava mais em conversas informais do que nas aulas propriamente ditas. Coisas que ele disse nas primeiras vezes em que estive com ele e repetiu na comic con Fortaleza, a última vez que falei com ele. Que desenho depende de concentração, observação e renúncia. Depende de você deixar de brincar e se dedicar. As vezes ele apontava um desenho e dizia: "Isso é resultado de noites sem dormir, ou fins de semana sem se divertir", algo nesse sentido. Por vezes espantava as pessoas quando dizia "não estar gostando" de um desenho ou sequencia que havia feito, que aos olhos de nós, meros mortais, era a pura perfeição. Uma vez, por indicação dele, fui comprar uma mesa de luz perto de onde ele morava. Tive a chance de entrar na casa dele e ver onde e como ele trabalhava. Naquele momento senti um choque com a realidade, ao ver uma pequena sala, com o teto coberto com uma lona, pra não pingar chuva no desenho. Claro que em pouco tempo depois a situação melhorou para ele nesse sentido. Depois percebi que a vida que ele levava assim como a vida dos demais desenhistas pra editoras americanas não era nada fácil. Trabalho intenso, prazos apertados, uma página por dia. Eu percebia que não tinha a coragem e força de vontade necessárias pra fazer oque ele fez por tantos anos. No outro curso dele, anos depois, em uma das aulas ele tocou violão para a turma. Essa foi a música que ele tocou:

E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só
Roberto Carlos

Se a vida inteira você esperou um grande amor
E de triste até chorou
Sem esperanças de encontrar alguém
Fique sabendo que eu também andei sozinho
E sem ninguém pra mim
Fiquei sem entregar o meu carinho
Se na tua estrada não houve flor
Foi só tristeza enfim,
E em cada dia, sem ter amor, foi tudo tão ruim
Vou confessar então, meu coração
Não quer mais existir
Meus olhos vermelhos cansados de chorar querem sorrir
Ah! Por isso foi que eu decidi
Não fico nem mais um minuto aqui
Eu vou buscar o meu amor, o meu amor
Eu nunca tive alguém, agora vou
Olhar você meu bem
Guarde o meu coração
Que nunca mais eu vou deixar você tão só
E nunca mais eu vou deixar você tão só
E nunca mais eu vou ficar também tão só


Sempre chamava as pessoas pra ir na casa dele, ligar e combinar "alguma coisa". Quem sabe se sentisse solitário. Quem sabe a solidão intrínseca a isso que nós desenhistas fazemos estivesse pesando nele. Ironicamente eu não pensava em aparecer na casa dele por medo de atrapalhá-lo, pois ele estaria certamente muito ocupado com alguma página muito importante. Ele para mim era um gigante. Um mestre. Alguém que eu sempre vi como superior a mim e como alguém assim poderia precisar de mim pra alguma coisa? Ele parecia ter tudo, sucesso, dinheiro, família, amigos, respeito. Agora sempre será tarde demais. A certeza que tenho é que a beleza das imagens que ele dedicou toda sua vida, esforço e talento para criar continuarão a inspirar e a encorajar novos artistas, e fazê-los se perguntar: Eu poderia ser como Al Rio?

DJ.