domingo, 8 de dezembro de 2013

CIRANDA DA SOLIDÃO- Mário Cesar

Olá a todos!

Ufa! Passada toda a euforia do FIQ, (que pra mim é como se não tivesse passado, devido a todas as outras coisas que tive que resolver assim que voltei pra casa)... Finalmente, e atrasado comecei a ler as HQs que trouxe comigo, e outras de antes mesmo do FIQ.

Sempre quis produzir uma série de reviews de quadrinhos que li, e acho que começo essa série com este. Como muitos dos meus projetos, este nasceu de uma frustração. Comecei e ter vontade de escrever reviews de HQs que eu gostei, porque algumas vezes sites pra onde eu mandei minhas HQs não chegaram a publicar nada sobre elas. Então isso pra mim é meio como se fosse uma desforra, algo como "se ninguém vai fazer eu faço", ou algo parecido. É claro que no caso da obra de hoje, imagino que outros sites tenham realizado reviews,  mas deixo já registrado que o presente review vem de minha total iniciativa. Não sei nem se deveria chamar isso de "Review". Não estou analisando a obra sobre nenhum aspecto técnico ou artístico. Vou falar sobre as minha impressões pessoais basicamente e de como a coisa me tocou. Com essa introdução, vamos a CIRANDA DA SOLIDÃO- de Mário Cesar.

Uma coletânea de 5 HQs sobre relacionamentos. Acho que as histórias são basicamente sobre relacionamentos, mas mostrados do ponto de vista homossexual. Infelizmente ainda pra se falar sobre homossexuais é necessário logo depois falar sobre preconceito.  A obra do Mário aborda também essa questão, porque essa é mais uma complicação que os homossexuais vivem em suas vidas amorosas (como se a vida amorosa de qualquer pessoa já não fosse complicada o suficiente).  

Me desculpem a sinceridade aqui, mas eu preciso dizer que eu também tenho um certo preconceito. Acho que todos (inclusive homossexuais) temos. Eu não gosto de ver dois homens tendo intimidades, isso me incomoda de certa forma, e acho que isso pode ser classificado como preconceito. Mas como falei antes, a história é sobre relacionamentos, e com problemas de relacionamentos todos podem se identificar.
Aliás a chave pra vermos como o preconceito e o medo não tem sentido é justamente a identificação, e eu acredito muito nisso. No seu texto final, Mário explica como a leitura de algumas obras de quadrinhos provocaram nele uma identificação  mais realista com seus problemas pessoais, de X-men até Sandman.
A identificação fez como que ele tivesse uma visão melhor de si próprio, e com certeza, Ciranda da Solidão tem o mesmo efeito sobre quem lê.  A primeira HQ por exemplo, trata de inadequação social.  Que é em boa parte o tema sobre o qual eu também falo na minha HQ.  Meu personagem principal, o Oigo, que é baseado em mim mesmo, também é um eterno inadequado, estranho e desencaixado da ordem social. Todos os acham estranho e esquisito, e eu o desenho propositalmente gordo e curvado, assim como eu sou, eu como uma versão distorcida de como eu me vejo, ou talvez até baseado na visão distorcida que me fizeram acreditar que era eu. 

Por esse motivo, além de qualquer tipo de questão homossexual, eu pude me identificar muito com a primeira história, com o personagem se sentindo fisicamente estranho, com medo de os outros rirem e fazerem piadas com ele no colégio. Sim, aquela cena aconteceu comigo, porque eu era gordo quando criança.  Então quando o Mário fala sobre o "Clube das pessoas normais", eu posso me relacionar diretamente com isso. Isso me fez ver semelhanças entre o meu trabalho e o do Mário.  Apesar de todas as diferenças que você poderia imaginar no nível superficial, já que o Oigo vive caçando mulheres.
E de repente eu me toco de que realmente todos estamos nesta Ciranda da Solidão, não importa se somos heterossexuais ou homossexuais. Somos todos humanos, e sempre vamos sofrer de relacionamentos desfeitos, ou se formos diferentes de algum padrão arbitrariamente estabelecido:  Seja se formos gordos, negros, baixos, Gays, mutantes, ou qualquer que seja a categoria considerada Inferior. (A metáfora do Street Fighter caiu perfeitamente na situação).


A parte da primeira HQ, que foi a minha preferida, as outras também são bem legais. Gostei bastante de todas. Destaque em especial para as curtas de uma página, e a página em forma de ampulheta da história "A escrita no muro", fazendo referência ao tempo, que se desenrola de forma não-linear na HQ.  E o interessante aqui também é que observando essas HQs, elas poderiam ser contadas sem perder nada do seu sentido se os protagonistas fossem casais heterossexuais. Isso diz de forma muito sutil que as relações homossexuais realmente não são tão diferentes dos heterossexuais, ao  contrário do que poderíamos imaginar. Talvez isso aconteça devido a influência daquelas visões estereotipadas cômicas de homossexuais, das quais o Mário fala em seu texto, e que ele tenta justamente quebrar em seu trabalho.
Esse é um dos motivos pelos quais eu gosto muito de HQs pessoais, principalmente do tipo que você não vê sempre. Sempre acho interessante ler trabalhos em HQ com roteiros de mulheres, por exemplo. Até adaptei um texto de uma amiga pra quadrinhos, coisa que normalmente não faço. 

 Porque gostei do texto e é uma coisa que você não vê sempre. Assim como o trabalho do Mário, que além de ser interessante, bem escrito e divertido, é também muito necessário.


Uma das coisas mais legais que esse tipo de quadrinhos nos dá é poder ver o mundo pelos olhos de outra pessoa, nem que seja por alguns instantes. Isso é o que eu busco passar com o meu trabalho, em boa parte. Eu quero que as pessoas vejam as coisas pelo ponto de vista do meu personagem, e por alguns momentos se sintam na pele dele, se sintam um pouco como eu me senti em determinado momento. Em a "Ciranda da solidão", você também vê as coisas um pouco como o Mário, como tenho certeza,  também era  a intenção dele. E vendo as coisas do ponto de vista dele, descobri  que ele vai além dos estereótipos. É uma ótima leitura, seja qual for a sua opção sexual.   

 DJ.

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